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Perspectivas

5 anos da pandemia de COVID-19: As origens de uma catástrofe social

Há cinco anos, em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a COVID-19 uma pandemia global. Isso marcou um ponto de inflexão crítico no que se tornaria a pior crise de saúde pública global desde a pandemia de gripe de 1918-1920, impactando profundamente a saúde e a vida de toda a população mundial e desestabilizando a vida social e política em todos os países.

Pacientes com COVID-19 são tratados dentro de um sistema de ventilação não invasiva no hospital de campanha municipal Gilberto Novaes em Manaus, Brasil, em 18 de maio de 2020. [AP Photo/Felipe Dana]

Esse aniversário sombrio foi recebido com um silêncio quase universal do establishment político e da mídia corporativa de todos os países. Praticamente todas as colunas publicadas minimizaram o caráter catastrófico da pandemia e se referiram a ela no passado, apesar do fato de que a COVID-19 continua a incapacitar e matar milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano.

O dano cumulativo da pandemia é difícil de quantificar e compreender. As estimativas de excesso de mortes indicam que cerca de 30 milhões de pessoas já morreram em todo o mundo devido à infecção aguda por COVID-19 ou aos inúmeros impactos adversos à saúde que o vírus causa no organismo.

A COVID longa, documentada pela primeira vez por pacientes em maio de 2020, agora afeta mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. Diversos estudos demonstraram que o SARS-CoV-2, o vírus que causa a COVID-19, pode persistir em todos os sistemas orgânicos e até mesmo atravessar a barreira hematoencefálica, produzindo mais de 200 sintomas documentados que são frequentemente debilitantes. As infecções por COVID-19 foram definitivamente associadas ao aumento do risco de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral, doença renal, danos pulmonares, desregulação imunológica, uma ampla gama de distúrbios neurológicos e muito mais.

Vários estudos científicos demonstraram que o risco de desenvolver a COVID longa é agravado por cada reinfecção. Dados de águas residuais, agora a única métrica confiável para rastrear a propagação da pandemia, mostram que o americano já foi infectado pela COVID-19, em média, quase quatro vezes. Na trajetória atual, esse número chegará a oito infecções por pessoa até março de 2030. Uma realidade semelhante, sem dúvida, existe em todo o mundo.

O que causou esse desastre, e quem é o responsável?

No sentido mais fundamental, o sistema capitalista – baseado na divisão do mundo em estados-nação rivais e na subordinação das necessidades sociais ao lucro privado – é a fonte das políticas socialmente criminosas implementadas globalmente em resposta à pandemia.

A oligarquia corporativo-financeira que comanda a sociedade decidiu desde o início que nada seria feito para interromper o fluxo de lucros e o aumento do mercado de ações. Seu objetivo era usar a pandemia para estabelecer que o principal interesse e objetivo político dos governos burgueses, em todas as condições, é aumentar sua riqueza e intensificar a exploração.

Quando a OMS declarou uma pandemia, pouco mais de dois meses haviam se passado desde que a comunidade científica tomou conhecimento de que um novo e perigoso coronavírus havia sido detectado. Desde o início, perdeu-se um tempo crítico. Como foi revelado posteriormente, o governo Trump e outros foram informados no início de fevereiro de 2020 sobre os imensos perigos apresentados pela COVID-19, mas deliberadamente optaram por não coordenar uma resposta internacional, adotando, em vez disso, uma política de “negligência maligna”.

Em meados de fevereiro, ficou claro que os EUA e o mundo estavam enfrentando um patógeno mortal e, se não fossem tomadas medidas rápidas, sua disseminação poderia resultar na morte de milhões de pessoas em todo o mundo. Quando isso foi reconhecido pela população, logo após a primeira morte nos EUA, em 29 de fevereiro de 2020, houve um choque geral.

Os hospitais nos epicentros iniciais da transmissão viral foram rapidamente inundados de pacientes, com profissionais de saúde sobrecarregados até o ponto de ruptura, se não infectados ou mortos devido a proteções inadequadas ou inexistentes. O transbordamento de necrotérios e a escavação de valas comuns estavam se tornando onipresentes. Essas cenas horríveis nos EUA, na Itália e em todo o mundo dominaram a consciência pública, com a expectativa de que o governo reagisse e tomasse as medidas necessárias para priorizar a vida.

Mas o único país do mundo que inicialmente implementou as medidas necessárias para salvar vidas e proteger a população foi a China. A raiva crescente da classe trabalhadora chinesa em janeiro de 2020 forçou o governo a ser pioneiro na histórica política da COVID Zero na província de Hubei em 23 de janeiro de 2020, envolvendo lockdowns, testes em massa, rastreamento rigoroso de contatos e outras medidas de saúde pública estabelecidas há muito tempo. Setenta e seis dias depois, a China saiu dos lockdowns e retomou a vida relativamente normal, mantendo políticas vigorosas de teste e rastreamento pelos dois anos e meio seguintes, antes que o imperialismo mundial pressionasse o Partido Comunista Chinês (PCC) a descartar essa política que salvou vidas, causando de 1 a 2 milhões de mortes.

Fora da China, em meados de março de 2020, o novo coronavírus estava atingindo locais de trabalho e escolas em todas as regiões metropolitanas do mundo. Isso levou os trabalhadores do setor automotivo, educadores e outros setores da classe trabalhadora internacional a forçar o fechamento de locais de trabalho e escolas não essenciais para salvar vidas.

Quando os mercados de ações despencaram em Wall Street e nos centros financeiros globais, todos os esforços do establishment político foram direcionados para socorrer os bancos. Em vez de implementar um programa sistemático para salvar vidas e combater o vírus, a principal prioridade da elite dominante era salvar o capitalismo e impedir a queda livre em Wall Street.

O presidente Donald Trump fala durante uma coletiva de imprensa sobre a pandemia no Rose Garden da Casa Branca, em 13 de março de 2020, em Washington. [AP Photo/Evan Vucci]

Em 22 de março de 2020, o New York Times publicou um artigo de seu “mensageiro imperial” Thomas Friedman, cunhando o novo mantra para a campanha de volta ao trabalho: “A cura não pode ser pior do que a doença”. Essa campanha ganhou força na semana seguinte, após a aprovação da Lei CARES, que deu início à canalização de trilhões de dólares para os ricos, enquanto milhares de trabalhadores e aposentados morriam todos os dias.

Toda a narrativa oficial mudou de supostamente salvar vidas para a rápida reabertura da economia. Isso coincidiu com a promoção generalizada da política de “imunidade de rebanho” de infecção em massa deliberada, iniciada na Suécia. Essa política pseudocientífica baseava-se na alegação fraudulenta de que as pessoas, uma vez infectadas com a COVID-19, ficariam para sempre imunes à doença. Além de seu caráter desumano, essa política fazia suposições totalmente falsas sobre o vírus, ignorando os dados históricos sobre as amplas consequências da infecção por coronavírus, conforme documentado após o surto de SARS-CoV-1 de 2002-2004.

Foram apresentadas concepções eugenistas e fascistas, com um ethos moderno de “sobrevivência do mais apto” permeando todos os discursos e políticas de Donald Trump, Boris Johnson, Jair Bolsonaro e seus co-interlocutores internacionais. A promoção moderna do malthusianismo adquiriu o caráter de uma celebração da morte.

Nos EUA, a eleição de Joe Biden não trouxe nenhuma mudança fundamental. Apesar das promessas de “seguir a ciência”, Biden perpetuou a subordinação da saúde pública às demandas de Wall Street. O início da vacinação que salvam vidas – que foi uma conquista verdadeiramente maciça da ciência moderna – foi subordinado ao lucro privado e ao nacionalismo das vacinas. Até hoje, a grande maioria das pessoas em países de baixa renda nunca recebeu duas doses de vacinas contra a COVID-19, incluindo 68% dos africanos.

Depois de inicialmente adotar a estratégia de apenas vacinar a população e desencorajar ativamente o uso de máscaras e outras medidas de saúde pública, em novembro de 2021 o governo Biden saudou o surgimento da variante Ômicron, altamente infecciosa e resistente a vacinas, com indisfarçável alegria. No período subsequente, ele desmantelou constantemente todo o sistema de vigilância da pandemia e, no verão seguinte, a Casa Branca adotou explicitamente a política “COVID para sempre” de infecção em massa, morte e debilitação sem fim.

O ataque bipartidário à ciência em resposta à pandemia de COVID-19 prejudicou o campo da saúde pública, preparando o terreno para a próxima pandemia. No ano passado, o governo Biden não fez nada para impedir a disseminação da gripe aviária H5N1 entre o gado leiteiro, apesar do fato de que a gripe aviária historicamente tem uma taxa de mortalidade de 50% entre os seres humanos.

As políticas desastrosas de Biden, incluindo a normalização da morte e debilitação em massa devido à COVID-19, criaram as condições para o retorno de Trump à Casa Branca e a confirmação de Robert F. Kennedy Jr. para chefiar as 13 agências do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS). Kennedy, o mais notório fornecedor de desinformação antivacina do mundo, já está lançando dúvidas sobre as vacinas em resposta ao crescente surto de sarampo no Texas e no sudoeste dos EUA, que matou duas pessoas até agora.

Robert F. Kennedy Jr. fala após ser empossado como secretário de Saúde e Serviços Humanos no Salão Oval da Casa Branca, em 13 de fevereiro de 2025, em Washington, D.C. [AP Photo/Alex Brandon]

Na semana passada, o Senado realizou audiências de confirmação para Jay Bhattacharya, escolhido por Trump para chefiar os Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Conhecido como coautor da Declaração de Great Barrington, o manifesto da “imunidade de rebanho”, Bhattacharya não foi questionado por um único democrata sobre seu papel criminoso durante a pandemia.

As primeiras semanas do segundo governo Trump foram marcadas por uma série de ações alarmantes, incluindo:

  • A retirada dos EUA da OMS, prejudicando os esforços globais para rastrear e responder a pandemias;
  • Uma ordem de mordaça sem precedentes imposta a todas as 13 agências do HHS, suprimindo informações vitais de saúde pública; e
  • A demissão de mais de 5.000 funcionários do HHS, do CDC, do NIH e da FDA, tendo como alvo cientistas e profissionais de saúde pública.

Um objetivo central do governo Trump é destruir a Previdência Social, o Medicare e o Medicaid, programas dos quais dezenas de milhões de americanos dependem para sobreviver. Essa é a extensão lógica das políticas bipartidárias da pandemia destinadas a eliminar os idosos e reduzir a expectativa de vida, o que, segundo um estudo recente, economizou US$ 156 bilhões em gastos sociais.

A pandemia revelou que a posição de setores substanciais da elite dominante era de que mais pessoas deveriam ter morrido. Por parte dela, representada nos EUA por Trump, os republicanos e seus apoiadores, como o bilionário fascista Elon Musk, as medidas tomadas para salvar vidas foram vistas como uma oportunidade perdida de eliminar os idosos e reduzir os gastos com a Previdência Social, o Medicare e o Medicaid.

Durante toda a pandemia, o World Socialist Web Site travou uma luta incansável pela verdade científica. Expusemos as mentiras dos governos e da mídia, defendemos cientistas com princípios contra ataques e defendemos uma política científica de eliminação global, a única estratégia viável para a pandemia. A Investigação Mundial dos Trabalhadores sobre a Pandemia de COVID-19, iniciado pelo WSWS, é uma prova do nosso compromisso de revelar a verdade e responsabilizar os culpados.

A pandemia não acabou de forma alguma. Novas variantes continuam a surgir, e a ameaça de novos patógenos, como a gripe aviária, é grande. Neste inverno [no hemisfério norte], a convergência da COVID-19 com outras doenças respiratórias mais uma vez sobrecarregou os sistemas de saúde, com mais de 20.000 americanos morrendo de gripe sazonal. Nesse contexto, o WSWS reitera as seguintes demandas:

  • Pelo fim imediato da política “COVID para sempre” e pela implementação de medidas de saúde pública com base científica! Isso inclui o uso universal de máscaras, testagem abrangente e rastreamento de contatos, melhor ventilação em todos os espaços públicos e apoio financeiro para as pessoas afetadas pela pandemia.
  • Por um investimento maciço em pesquisa e desenvolvimento de vacinas e tratamentos de última geração! Isso deve ser acompanhado de um esforço global para garantir o acesso universal a essas ferramentas que salvam vidas.
  • Por uma reorganização fundamental da sociedade baseada em princípios socialistas! Essa é a única maneira de garantir que a saúde pública seja priorizada em relação ao lucro privado e que as necessidades de todas as pessoas sejam atendidas.

A pandemia de COVID-19 revelou a incapacidade do capitalismo de lidar com os problemas da sociedade moderna e que esse sistema social está em um estado avançado de retrocesso. A classe trabalhadora deve tirar as conclusões necessárias e assumir a luta por um futuro socialista. Esse é o único caminho para acabar com a pandemia e construir um mundo livre de exploração, opressão e morte evitável.